“Diretas Já são muito pouco diante das nossas necessidades”

Por Gabriel Brito – Cor­reio da Ci­da­dania
07/06/2017

Entrevista a historiadora Virginia Fontes

O pre­si­dente Mi­chel Temer en­frenta as garras da jus­tiça elei­toral e pode ser cas­sado nos pró­ximos ins­tantes. En­quanto isso, as cen­trais sin­di­cais in­dicam greve para o final do mês. Em en­tre­vista ao Cor­reio da Ci­da­dania, a his­to­ri­a­dora Vir­gínia Fontes des­creve as com­ple­xi­dades das dis­putas po­lí­ticas e econô­micas e de­fende uma pauta mí­nima para que se co­mece a sair da crise, para além das Di­retas Já.

“Fora Temer agora, greve geral, Di­retas Ge­rais Já e anu­lação de todos os seus atos e con­trar­re­formas cons­ti­tu­ci­o­nais re­a­li­zadas pelos con­gres­sistas-gangue, que são a mai­oria. É uma pauta mí­nima. Re­solve? Se­gu­ra­mente, não. Mas abre es­paço para que ou­tras formas de or­ga­ni­zação possam emergir. O fu­turo dirá se virão bons frutos, mas os frutos po­dres já estão aí, a co­meçar por Temer, a im­po­sição do im­pe­a­ch­ment e seus des­do­bra­mentos em con­trar­re­formas cons­ti­tu­ci­o­nais, com todo o es­bulho sobre os di­reitos dos tra­ba­lha­dores”, ana­lisou.

De en­contro com o que disse ao Cor­reio o eco­no­mista José Antônio Mar­tins, aponta que quanto mais se apro­fundam as po­lí­ticas di­tadas pela classe do­mi­nante, maior a in­go­ver­na­bi­li­dade do país. Tal como em en­tre­vista do ano pas­sado, à época da queda de Dilma, a his­to­ri­a­dora res­salta a ra­pi­nagem ampla, geral e ir­res­trita como única saída a unir uma bur­guesia menos uni­forme do que ge­ral­mente se supõe. Teses como “golpe pa­tro­ci­nado pelos EUA contra os BRICS” não dão conta da re­a­li­dade, na qual os atuais ge­rentes do Es­tado bra­si­leiro apos­taram suas fi­chas em Hil­lary Clinton, para ficar em apenas um exemplo.

“Po­demos ver uma tensão inter-es­cala, na qual são mais di­re­ta­mente atin­gidos os em­pre­sá­rios de es­cala mul­ti­na­ci­onal. Pri­meiro o Eike, de­pois Ode­brecht, OAS, agora JBS… Uma das coisas in­te­res­santes na­quele lema “não vamos pagar o pato” da FIESP me pa­receu a de­mons­tração de uma bur­guesia média e grande contra a me­ga­bur­guesia. Mas é im­pos­sível di­vidir o butim igual­mente. Basta ler o Valor re­gu­lar­mente para ver que eles estão de­nun­ci­ando uns aos ou­tros por conta de be­ne­fí­cios mai­ores ou me­nores”, ex­plicou.

A en­tre­vista com­pleta com Vir­gínia Fontes pode ser lida a se­guir.

Cor­reio da Ci­da­dania: Como ana­lisa a si­tu­ação do go­verno Temer após as de­la­ções da JBS virem à tona e des­mo­ra­li­zarem de modo pra­ti­ca­mente ir­re­ver­sível seu man­dato, ainda mais com o início do jul­ga­mento de sua chapa pelo TSE?

Vir­gínia Fontes: É um go­verno que nasceu podre e agora está fe­dendo cada dia mais. Acre­di­taram na ca­pa­ci­dade do Temer em uni­ficar a gangue em torno dessa ra­pi­nagem bur­guesa sobre os di­reitos dos tra­ba­lha­dores, a fim de co­brar da classe tra­ba­lha­dora todo o custo da crise econô­mica. Agora, tal ra­pi­nagem se alia de ma­neira ex­plí­cita ao blo­queio da Ope­ração Lava Jato e qual­quer in­ves­ti­gação. Vale lem­brar que esta úl­tima in­ves­ti­gação, a partir da de­núncia dos pro­pri­e­tá­rios da JBS-Friboi, é da PGR, não da equipe dos in­ves­ti­ga­dores e pro­mo­tores da Lava Jato.

O ce­nário é dan­tesco, de ex­po­sição com­pleta das ma­zelas da po­lí­tica bra­si­leira através deste go­verno. O se­gundo ponto im­por­tante é a ina­cre­di­tável ex­pli­ci­tação da ab­so­luta sub­ser­vi­ência do des­go­verno Temer aos de cima, as­so­ciada a uma im­pac­tante pre­po­tência frente à massa da po­pu­lação.

Acre­dito que ele vá cair mesmo, mas, acima de tudo, não é mais go­verno, in­de­pen­den­te­mente do que acon­teça.

Cor­reio da Ci­da­dania: O que achou das re­a­ções ca­pi­ta­ne­adas pelo sin­di­ca­lismo em Bra­sília, em 24 de maio, e mais am­pliada a toda a es­querda no Rio de Ja­neiro e em São Paulo nos úl­timos dois do­mingos?

Vir­gínia Fontes: A marcha a Bra­sília mos­trou um in­te­res­sante re­a­gru­pa­mento de forças de es­querda, com ban­deiras que vão além da­quelas mais ime­di­atas. As ban­deiras pe­tistas, por assim dizer, não dão conta da com­ple­xi­dade do pro­cesso e nem do que pre­ci­samos adi­ante. Isso já está claro.

As di­re­ções não são ho­mo­gê­neas e é im­por­tante lem­brar a sequência de ocu­pação de es­colas no ano pas­sado, en­fren­ta­mentos im­por­tan­tís­simos contra o pro­jeto da Es­cola Sem Par­tido, que são formas de re­a­pren­di­zado de luta da ju­ven­tude, que vinha muito à margem da po­lí­tica – e em parte ainda está. Entre ou­tras coisas por se verem li­mi­tadas por en­ti­dades or­ga­ni­za­tivas que mais do que educar-se e formar-se com essa ju­ven­tude es­tavam uti­li­zando-a como massa de ma­nobra para fazer es­pe­tá­culos, sem se­quer pensar no papel da uni­ver­si­dade, por exemplo.

A Re­forma da Pre­vi­dência é o abuso que evi­dencia cla­ra­mente o con­junto do que já foi feito. Há um en­ga­ja­mento maior nessas lutas. E a tru­cu­lência contra tais ma­ni­fes­tantes é im­pac­tante, como ficou claro em Bra­sília. Tiro de ver­dade, bombas ati­radas de he­li­cóp­tero, a Praça dos Três Po­deres en­char­cada de gás… Uma tru­cu­lência inad­mis­sível. Apostam no ame­dron­ta­mento da po­pu­lação, mas isso pode ter papel in­verso.

No Rio de Ja­neiro é outra bar­ba­ri­dade. A po­lícia mi­litar não age contra o black bloc, como se alega. Age contra o con­junto da ma­ni­fes­tação. E não faz isso apenas du­rante o ato; ela per­segue pes­soas de­pois do tér­mino. Entra em bares, per­segue na rua, es­colhe pes­soas ale­a­to­ri­a­mente… Assim, es­tamos di­ante de um acir­ra­mento das lutas ao mesmo tempo em que a vi­o­lência vem au­men­tando.

Co­ti­di­a­na­mente, esta vi­o­lência in­cide sobre os bairros po­pu­lares, ou na Cra­co­lândia, como no exemplo de São Paulo. Nas fa­velas ca­ri­ocas, a si­tu­ação se in­ten­si­ficou de ma­neira im­pac­tante nos úl­timos meses, in­clu­sive com o trá­fico em guerra. São vá­rias cri­anças ba­le­adas este ano.

Há uma es­ca­lada de ten­sões e lutas. É fun­da­mental que tanto o sin­di­ca­lismo como todas as formas or­ga­ni­za­tivas en­trem nessa luta. Par­tidos, sin­di­catos, mo­vi­mentos, tudo.

Cor­reio da Ci­da­dania: Você é a favor das Di­retas Já? Acre­dita que po­de­riam gerar bons frutos?

Vir­gínia Fontes: É um pouco mais com­plexo. Temos de ter uma pauta mí­nima. E é mí­nima mesmo, mas deve dizer o que pre­cisa ser dito: Fora Temer agora, greve geral, Di­retas Ge­rais Já e anu­lação de todos os seus atos e con­trar­re­formas cons­ti­tu­ci­o­nais re­a­li­zadas pelos con­gres­sistas-gangue, que são a mai­oria. Nem todos os par­la­men­tares in­te­gram a gangue, é bom lem­brar.

É uma pauta mí­nima. Re­solve? Se­gu­ra­mente, não. Mas abre es­paço para que ou­tras formas de or­ga­ni­zação possam emergir. O fu­turo dirá se virão bons frutos, mas os frutos po­dres já estão aí, a co­meçar por Temer, a im­po­sição do im­pe­a­ch­ment e seus des­do­bra­mentos em con­trar­re­formas cons­ti­tu­ci­o­nais, com todo o es­bulho sobre os di­reitos dos tra­ba­lha­dores.

A pró­pria bur­guesia, como dito na en­tre­vista do José Antônio Mar­tins ao Cor­reio, está de­vas­tando as con­di­ções da go­ver­na­bi­li­dade. Mas não basta que eles de­vastem. É pre­ciso que a gente cons­trua um novo es­paço. Su­perar os pro­blemas le­gados pelo PT exi­girá pro­cessos de luta que per­mitam tal su­pe­ração. E re­al­mente terá de ser pela via po­pular. É pre­ciso ter cla­reza de que está em an­da­mento um grande ataque à classe tra­ba­lha­dora; não basta re­agir, é pre­ciso contra-atacar.

Cor­reio da Ci­da­dania: As cen­trais sin­di­cais se reu­niram e di­vul­garam en­ca­mi­nha­mento a res­peito de “mo­bi­li­zação geral em 20 de junho, com cha­mado de greve geral para o dia 30”. Não é muito banho-maria di­ante da crise que vi­vemos?

Vir­gínia Fontes: Pes­so­al­mente, tendo a acre­ditar que sim. Sei, também, que as­se­gurar uma greve geral exige re­a­firmar elos entre di­reção sin­dical e base, que foram muito di­la­ce­rados no pe­ríodo Lula, seja nas cen­trais com his­tó­rico de es­querda ou nas cen­trais que nas­ceram para a cap­tura de re­cursos e ala­van­cagem de pro­cessos po­lí­ticos, mas que en­volvem tra­ba­lha­dores.

Acho o ritmo lento, o que pode su­gerir fra­queza. En­tre­tanto, um pro­cesso in­terno de cons­trução, como es­pe­ramos, pode ser po­si­tivo. Ouso crer que não se abrirá es­paço para ne­go­ci­a­ções de bas­ti­dores, assim como es­pero que não se li­mitem ao ca­len­dário da tra­mi­tação das con­trar­re­formas que o Con­gresso in­siste em tentar. A luta tornou-se mais séria.

É di­fícil ava­liar a ati­tude das cen­trais, mas é mais do que ur­gente a greve geral.

Cor­reio da Ci­da­dania: Já que você men­ci­onou a tese do eco­no­mista José Antônio Mar­tins, no sen­tido de que a pró­pria bur­guesia bra­si­leira está apro­fun­dando a in­go­ver­na­bi­li­dade do país, como ana­lisa este mo­mento em termos es­tru­tu­rais?

Vir­gínia Fontes: Na ver­dade, meu tra­balho pro­cura as­so­ciar a questão es­tru­tural econô­mica com a questão es­tru­tural po­lí­tica. A pro­vo­cação de Mar­tins vai na di­reção certa. Em en­tre­vista re­cente ao Valor, a Claudia Sender, que está na linha de su­cessão da Latam, diz exa­ta­mente isso: seus amigos lhe per­guntam “por que vocês dão tiro no pé?”. E não é a única ma­ni­fes­tação neste sen­tido.

Tal quadro evi­dencia que o golpe contra Dilma é re­sul­tado de cir­cuns­tân­cias con­tra­di­tó­rias, a en­volver po­si­ções e si­tu­a­ções di­versas que ge­raram uma es­pécie de bolha em­pre­sa­rial-mi­diá­tica-ju­rí­dica-par­la­mentar, em torno de uma gangue par­la­mentar.

Mas não vi­eram juntos no per­curso. A meu juízo, o grupo co­man­dado por Edu­ardo Cunha pro­cu­rava se blindar e pre­servar sua gangue, de prá­ticas chan­ta­gistas da po­lí­tica com es­treitas cor­re­la­ções em­pre­sa­riais. Es­pe­ravam que der­ru­bando Dilma her­da­riam os postos e con­se­gui­riam se blindar da Lava Jato, e ainda man­te­riam seus ga­nhos, o que não con­se­guiram.

Quem as­sumiu o papel de ava­lista do blo­queio à Lava Jato foi, di­re­ta­mente, Mi­chel Temer, o que torna mais com­pli­cada a si­tu­ação. Em pa­ra­lelo, uma ex­trema-di­reita opor­tu­nista e com­ple­ta­mente sem ca­ráter – no sen­tido de não ter pro­grama, pro­jeto ou par­tido – passou a re­ceber ainda mais be­nesses em­pre­sa­riais – casos de MBL, Re­vol­tados On­line etc. Ela des­foca o pro­blema real, uma crise econô­mica e uma crise po­lí­tica, para um en­fren­ta­mento entre pe­tra­lhas e co­xi­nhas que nem se­quer tem re­per­cussão na­ci­onal, pois é um pro­blema mais pau­lista e su­lista do que na­ci­onal. Trouxe um com­pli­cador que blo­queia uma das saídas bur­guesas, a de con­ci­liar pelo alto, ad­mi­tindo uma es­querda desde que vol­tada para o ca­pital. Esta se des­gas­taria ge­rindo a crise, en­quanto as bur­gue­sias res­tau­ra­riam uma força po­lí­tica or­ga­ni­zada neste meio tempo.

O con­junto da bur­guesia, com suas di­fe­renças in­ternas e ex­ternas, con­tro­lava todos os par­tidos. Agora é evi­dente. A ex­pe­ri­ência tru­cu­lenta de tais bur­gue­sias levou-as a acre­ditar que bas­tava ajustar con­dutas. Tirar um par­tido e ficar com o resto. As únicas al­ter­na­tivas para uni­ficar esse díspar con­junto bur­guês do Brasil – no qual estão em­presas pe­quenas, mé­dias e grandes, bra­si­leiras mul­ti­na­ci­o­nais e mul­ti­na­ci­o­nais es­tran­geiras – eram a li­mi­tação da Lava Jato, o que não ocorreu, a de­vas­tação das con­quistas dos tra­ba­lha­dores, que está em curso, e a re­dis­tri­buição dos re­cursos pú­blicos pelo alto. Essa dis­tri­buição causa novas ten­sões entre os se­tores bur­gueses, agora des­pro­vidos de le­gi­ti­mi­dade po­lí­tica. Como se ob­serva, pro­fun­da­mente an­ti­de­mo­crá­tico.

Elas também acharam que po­de­riam apro­fundar a in­fluência di­reta sobre os três po­deres, a partir da compra e da tru­cu­lência. A prá­tica da au­to­cracia está ge­ne­ra­li­zada. De certa forma, a ex­pe­ri­ência da di­ta­dura mi­litar ainda está viva para muitos dos atuais pro­ta­go­nistas. E ser tru­cu­lenta com os tra­ba­lha­dores nunca foi pro­blema para a bur­guesia.

A isso se soma o agro­ne­gócio e seu peso cres­cente. Este tem his­tó­rico de or­ga­ni­zação econô­mica e po­lí­tica de re­solver as coisas na bala. Aca­bamos de ver o as­sas­si­nato de 10 pos­seiros no Pará, por in­ter­médio da po­lícia. As­sis­timos a um con­junto de vi­o­lên­cias di­retas (contra ma­ni­fes­ta­ções, es­tu­dantes, dro­gados, fa­ve­lados, ra­cismos, se­xismos etc.) e par­la­men­tares (contra os tra­ba­lha­dores) que se­gu­ra­mente au­men­tarão o con­junto das ten­sões.

Cor­reio da Ci­da­dania: De modo que con­tinua vi­gente sua tese de que o im­pe­a­ch­ment foi apro­vado pelas fra­ções do grande ca­pital bra­si­leiro ainda que não hou­vesse tanta con­vicção de sua ne­ces­si­dade.

Vir­gínia Fontes: Diria que as ten­sões entre se­tores, fra­ções e es­calas do ca­pital es­tavam bas­tante ex­plí­citas. Muitos se ca­ci­faram para uma mul­ti­na­ci­o­na­li­zação ace­le­rada. E tal tensão, de es­cala, não está re­sol­vida. Em uma das elei­ções con­juntas FIESP-CIESP, quando o Skaf ga­nhou, o re­pre­sen­tante da FIESP disse: “da FIESP pode ga­nhar quem for, porque tem 80% dos em­pre­sá­rios, mas nós da CIESP temos 80% do ca­pital”. Isso há cerca de 10 anos. É di­fícil acom­pa­nhar, pois as po­si­ções do grande ca­pital se des­locam, não ficam per­ma­nen­te­mente aco­pladas a uma ins­ti­tuição, so­bre­tudo àquelas de­ri­vadas do sis­tema cor­po­ra­tivo bra­si­leiro, como sin­di­catos e fe­de­ra­ções.

Po­demos ver uma tensão inter-es­cala, na qual são mais di­re­ta­mente atin­gidos os em­pre­sá­rios de es­cala mul­ti­na­ci­onal. Pri­meiro o Eike, de­pois Ode­brecht, OAS, agora JBS… Uma das coisas in­te­res­santes na­quele lema “não vamos pagar o pato” da FIESP me pa­receu a de­mons­tração de uma bur­guesia média e grande contra a me­ga­bur­guesia. No mo­mento da crise elas se uni­ficam, mas em torno de que? Da re­ti­rada de todos os di­reitos e do re­bai­xa­mento do valor da força de tra­balho. E também da apro­pri­ação, de forma mais ou menos di­reta, do fundo pú­blico.

Mas é im­pos­sível di­vidir o butim igual­mente. Basta ler o Valor re­gu­lar­mente para ver que eles estão de­nun­ci­ando uns aos ou­tros por conta de be­ne­fí­cios mai­ores ou me­nores. En­quanto isso, todos juntos, prin­ci­pal­mente no Edi­to­rial do jornal, re­forçam a dis­cussão das con­trar­re­formas como con­dição úl­tima, com­ple­ta­mente his­té­rica, de avançar o país. O de­bate entre eles não é pú­blico e os eventos bur­gueses são cada vez mais fe­chados, os sites de al­gumas grandes en­ti­dades re­ti­raram seus do­cu­mentos do ar e ou­tros nem se­quer os pu­blicam.  Esse pro­ce­di­mento também ex­prime ten­sões.

Al­guns dizem que o golpe é pró-EUA ou contra os BRICS. É di­fícil ter cla­reza, até porque houve um erro es­tra­té­gico: esses gol­pistas apos­taram na vi­tória da Hil­lary, não do Trump. A opção para o me­ga­ca­pital era uma es­querda des­mi­lin­guida. Ao atacar o PT de ma­neira aberta e abrir es­paço para a ex­trema-di­reita sem se­quer or­ga­ni­ci­dade par­ti­dária, abriram um ce­nário dan­tesco.

Eles ti­nham todos os par­tidos. Hoje, ne­nhum par­tido bur­guês, e tam­pouco o PT, tem al­guma ca­pa­ci­dade de apre­sentar um pro­jeto po­lí­tico para o con­junto da bur­guesia. O aço­da­mento de in­ter­romper a Lava Jato e salvar a gangue só fez apro­fundar a crise po­lí­tica e econô­mica.

É pre­ciso acres­centar que, ao fa­larmos de EUA e BRICS, a dis­cussão é mais com­plexa. O que ocorre no ce­nário in­ter­na­ci­onal é o cres­ci­mento das ten­sões in­te­rim­pe­ri­a­listas. E no meio dessas ten­sões avança a crise da pró­pria ordem po­lí­tica global. A eleição do Ma­cron na França é muito ca­rac­te­rís­tica, com a der­ro­cada dos par­tidos tra­di­ci­o­nais e a cons­trução de novos. Outro exemplo: a li­de­rança po­lí­tica in­glesa que en­ca­mi­nhou o Brexit não o de­se­java…

Há uma de­sor­ga­ni­zação das es­tru­turas par­ti­dá­rias que sus­ten­tavam a do­mi­nação bur­guesa. Trump é mais um caso: as grandes elites do im­pe­ri­a­lismo norte-ame­ri­cano per­deram com sua eleição, e elas cons­ti­tuíam o es­ta­blish­ment que con­duzia o im­pe­ri­a­lismo. Não per­deram o elo com o ca­pital, claro, mas estão se re­a­co­mo­dando, evi­den­ci­ando ten­sões in­ter­bur­guesas e in­te­rim­pe­ri­a­listas grandes o bas­tante para nos pre­o­cupar.

Em tal con­texto, a bur­guesia bra­si­leira apostou em ter uma asa pro­te­tora es­ta­du­ni­dense, mas perdeu a aposta e agora pre­cisa re­ci­clar-se. Temer e seu bando já foram aos EUA de­mons­trar que re­cuam da dis­puta das po­si­ções su­bal­ternas com pre­ten­sões ca­pital-im­pe­ri­a­listas para a po­sição tra­di­ci­onal de ras­te­ja­mento su­bal­terno.

Cor­reio da Ci­da­dania: Você tem se de­bru­çado a res­peito das dis­putas in­ter­ca­pi­ta­listas das dis­tintas bur­gue­sias bra­si­leiras, cujos con­teúdos re­gi­o­nais também estão em sua aná­lise, o que ex­pli­caria a as­censão do PMDB, mais ca­pi­la­ri­zado que o PSDB, ao go­verno fe­deral, en­quanto os de­mais par­tidos iam se afo­gando por erros pró­prios. Quais bur­gue­sias re­gi­o­nais es­ta­riam em van­tagem agora e o que apon­ta­riam para os pró­ximos tempos?

Vir­gínia Fontes: A crise foi a con­ju­gação de muitos fa­tores, e não apenas por causa do su­pe­ra­juste. Ca­mi­nhos dís­pares que re­sul­taram em im­pe­a­ch­ment e apro­fun­daram a crise econô­mica e po­lí­tica. Havia dois par­tidos re­al­mente na­ci­o­nais. O PT ficou des­tro­çado. Agora o PMDB co­nhece a der­ro­cada, Sergio Ca­bral está na ca­deia, por exemplo. O PSDB também está na mira, com os des­ca­la­bros de Aécio Neves e ou­tros.

Não é vi­sível quem fica em van­tagem nas dis­putas na­ci­o­nais. Temos vá­rios ana­listas a tentar com­pre­ender os se­tores, grupos, se ren­tistas ou não, e tento cor­re­la­ci­onar se­tores e es­calas do ca­pital com as en­ti­dades bur­guesas sem fins lu­cra­tivos que têm ob­je­tivos di­re­ta­mente po­lí­ticos. Não são par­tidos, mas pre­tendem de­finir po­lí­tica pú­blica, acom­pa­nhar e con­trolá-la, formar ge­ra­ções ade­quadas para sua forma de ex­tração de valor. Esse cru­za­mento é ra­zo­a­vel­mente com­plexo.

Qual delas le­vará van­tagem, não está ainda claro, mas ra­ra­mente os mais con­cen­trados perdem… Pa­rece – mas só pa­rece – haver certo es­go­ta­mento po­lí­tico de São Paulo na ca­pa­ci­dade de for­mu­lação para o con­junto das bur­gue­sias. Não há a emer­gência pú­blica de al­guma en­ti­dade ou re­gião para ta­manha ca­pa­ci­tação. A briga ainda tem um peso muito grande de SP, in­dis­cu­tível no con­junto da fe­de­ração. Os mais atin­gidos estão fora do es­tado, como os ci­tados acima, em­bora não haja ga­rantia de que seja re­sul­tado da pró­pria atu­ação bur­guesa. Mas mostra que o eixo de al­gumas dessas grandes bur­gue­sias não es­tava di­re­ta­mente vin­cu­lado a SP, mesmo que ti­vessem re­lação, como a JBS e o seu Banco Ori­ginal, di­ri­gido por Hen­rique Mei­relles.

A se­gunda coisa im­por­tante é o enorme apa­rato de en­ti­dades sem fins lu­cra­tivos, mon­tado pela bur­guesia desde o pós-cons­ti­tuinte e que não está de­sa­ti­vado. Está si­len­cioso, mas tem pos­si­bi­li­dades de atuar de ou­tras ma­neiras. Essa si­tu­ação exige atenção, ainda que não seja ime­di­a­ta­mente le­gível. Tais en­ti­dades, que são muitas – cen­tros, fun­da­ções, ins­ti­tutos em­pre­sa­riais, mo­vi­mentos como o Todos Pela Edu­cação, entre tantos exem­plos –, estão agindo por dentro do Es­tado.

Quem as­sumiu agora o BNDES, Paulo Ra­bello de Castro, era di­ri­gente de uma en­ti­dade sem fins lu­cra­tivos cha­mada CEDES (Câ­mara de Es­tudos e De­bates Econô­micos e So­ciais) –, tor­nada Ins­ti­tuto Atlân­tico a partir dos anos 90, cujo ob­je­tivo era/é for­mular po­lí­ticas pú­blicas para o ca­pital. Não são aca­dê­micos, es­tu­di­osos, e sim gente com­ple­ta­mente li­gada ao apa­rato bur­guês, mesmo aquelas li­gadas a en­ti­dades me­nores. As mai­ores en­ti­dades não estão as­su­mindo po­si­ções claras no mo­mento, em­bora o IEDI (Ins­ti­tuto de Es­tudos do De­sen­vol­vi­mento In­dus­trial) venha se quei­xando da re­pre­sen­tação ofi­cial, cor­po­ra­tiva. Por isso não po­demos res­ponder quem está em van­tagem.

Vale men­ci­onar que se pe­garmos a lista das mul­ti­na­ci­o­nais bra­si­leiras, a grande mai­oria não está to­cada. Uma delas em es­pe­cial, a Gerdau. A Na­tura é outra em si­lêncio. E a Gerdau es­teve di­re­ta­mente en­vol­vida no go­verno Dilma, fez parte do Con­selho de De­sen­vol­vi­mento Econô­mico e So­cial dos dois go­vernos Lula e anima uma enorme quan­ti­dade de en­ti­dades sem fins lu­cra­tivos, em es­pe­cial no Sul, onde tem até es­cola de for­mação de qua­dros para formar her­deiros em­pre­sá­rios.

Agora vemos um balão de en­saio para o Tasso Je­reis­sati as­sumir. Quem é ele? É filho da grande bur­guesia nor­des­tina, irmão do pro­pri­e­tário da OI, bur­guesia im­pul­si­o­nada por FHC nas pri­va­ti­za­ções dos anos 90. Mas não só. A fa­mília Je­reis­sati está na OI, que deve mi­lhões, e à frente do grupo Igua­temi, que ad­mi­nistra shop­pings. Não está claro quem ganha ou perde, de ma­neira geral a crise está pi­o­rando para todos eles. E quanto mais apro­fundam suas po­lí­ticas, como disse o Mar­tins, mais apro­fundam a crise.

Cor­reio da Ci­da­dania: Por que não se con­segue dar o tiro de mi­se­ri­córdia em um go­verno tão inepto, in­clu­sive do ponto de vista de quem o sus­tentou, que ruma para o traço no ín­dice de apro­vação? Mesmo entre se­tores pro­gres­sistas, como en­xerga a volta a ban­deiras dos anos 80, seria sinal inequí­voco de um limbo his­tó­rico do qual se de­mo­rará “uma ou até duas dé­cadas pra se sair”, como ana­lisou o fi­ló­sofo Paulo Arantes?

Vir­gínia Fontes: Cer­ta­mente. Por isso fiz questão de men­ci­onar uma pauta mí­nima, pois assim fi­camos além dos anos 80. É uma pauta mí­nima e atual, não uma pauta má­xima.

Sem dú­vidas, esse limbo his­tó­rico deve se re­ferir ao pe­ríodo PT e o que desfez nas formas de auto-or­ga­ni­zação po­pular, dos tra­ba­lha­dores e da pre­pa­ração para o en­fren­ta­mento das con­di­ções atuais. Do ponto de vista da es­querda, pre­ci­sa­remos de longo fô­lego pra su­perar, e não me­ra­mente re­petir, o im­passe ao qual fomos con­du­zidos pelo go­verno de con­ci­li­ação de classes do PT. As pró­prias bases so­ciais que per­mi­tiram as vi­tó­rias elei­to­rais de Lula e Dilma foram de­sar­ti­cu­ladas. Tal pro­cesso é longo e do­lo­roso.

O pro­blema do PT não é só a cor­rupção, até porque esse é um pro­blema ge­ne­ra­li­zado. O grande pro­blema do PT é a de­vas­tação que pro­moveu em sua pró­pria base po­pular, sem barrar a cri­mi­na­li­zação dos mo­vi­mentos so­ciais ou a bar­bárie co­ti­diana. Apro­fundou-as e de­sarmou os elos de co­nexão entre di­re­ções sin­di­cais e bases, não en­fren­tando as novas formas de vida dos tra­ba­lha­dores.

Temos uma nova ge­ração de tra­ba­lha­dores que não des­fruta de di­reitos e, pior, não se en­xerga como tra­ba­lha­dores, tam­pouco é tra­tada como tal. A ban­deira Di­retas Já é muito sim­plista, não nos cabe mais. Pre­ci­samos de mais, pre­ci­samos de­sarmar o cerco que está co­lo­cado e abrir es­paço para a cons­trução de algo que vá além. Re­pito: a pauta mí­nima é: Fora Temer, greve geral, Di­retas Ge­rais Já e anu­lação de todos os atos e con­trar­re­formas ile­gí­timas.

Minha po­sição é pela so­ci­a­li­zação da exis­tência e a luta so­ci­a­lista exige que se diga a ver­dade. O que as­sis­timos é uma onda de tru­cu­lência e uma de­vas­tação sobre os di­reitos dos tra­ba­lha­dores. Pre­ci­samos lutar contra ambos. E lutar contra ambos pa­rece nos fazer voltar à di­ta­dura. Tanto pela tru­cu­lência como pela re­dução de di­reitos tra­ba­lhistas, de modo que lu­tamos como se es­ti­vés­semos 30 anos atrás. Mas não es­tamos 30 anos atrás.

Temos de ter claro que o ca­pi­ta­lismo hoje no Brasil en­volve o país como um todo, a massa de tra­ba­lha­dores é muito maior e mais com­plexa e as con­di­ções a partir das quais po­demos travar novas lutas se­gu­ra­mente são ou­tras. Pre­ci­samos su­perar esse tempo de apas­si­va­mento e a su­po­sição de ser pos­sível fazer as coisas como se a bur­guesia pu­desse estar do nosso lado. Pa­rece que está de­fi­ni­ti­va­mente claro qual o lugar da bur­guesia bra­si­leira.

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Ga­briel Brito é jor­na­lista e editor do Cor­reio da Ci­da­dania.

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